Jerusa Simone e a mulher no surrealismo

O Coletivo Amarelo está em constante crescimento e temos o orgulho de apresentar mais uma artista que fará parte do coletivo, a Jerusa Simone. A artista portuguesa, que hoje vive em Zurique, tem um olhar único angariado ao longo de sua vida e expressado através de sua arte. Ao tentar recriar memórias e emoções, o trabalho de Jerusa dialoga com o surrealismo.

Conheça Jerusa Simone, uma artista que recria momentos e experiências através do surrealismo

A arte de Jerusa Simone é baseada principalmente em suas experiências pessoais diárias, emoções e memórias recorrentes. Durante o seu processo, muitas vezes, a artista trabalha a partir de desenhos ingênuos que surgem de fundos abstratos desprovidos de uma ideia pré-existente. Desse modo, Jerusa abraça a pintura como um ato baseado em movimentos espontâneos e escolhas intuitivas.

Essa origem da arte no subconsciente e a tentativa de recriar memórias está diretamente ligada ao surrealismo, expressado através de suas criações. Seus objetos tomam formas a partir da sutileza e de linhas informais, formando figuras humanas, reproduzindo sinais visuais familiares, em conjunto com certa estranheza. 

A fim de estimular o espectador visual e intelectualmente, todo o trabalho da artista consiste em reconstruir a conexão entre símbolos, significados, cores e texturas, independentemente do meio utilizado.

Jerusa Simone é originária da cidade do Porto, em Portugal, mas hoje vive em Zurique, na Suíça. A artista é formada em artes plásticas pela Escola Artística do Porto e pela Accademia di Belli Arti di Roma.

Nos últimos anos, Jerusa tem explorado diferentes suportes da pintura através da videoarte. Com isso, ela conseguiu a oportunidade de expor internacionalmente em diferentes contextos e lugares, como Portugal, Itália, Arábia Saudita, Inglaterra, Grécia, Espanha, Estados Unidos e, recentemente em seu país sede, a Suíça.

A mulher e o surrealismo

Neste ano, a Bienal de Veneza realizou a sua 59ª edição e pela primeira vez em 127 anos exibiu, em sua maioria, artistas femininas. Nesta edição, a Bienal abordou os mistérios do subconsciente humano e seus surrealismos a partir da perspectiva de artistas mulheres.


Curada pela italiana Cecília Alemani, a exposição explorou temas que orbitam a imaginação de diferentes realidades, o universo dos sonhos e novas percepções sobre o que significa ser humano. Além disso, interligou a influência da tecnologia na criação de novos seres e o resgate da nossa imaginação enquanto crianças.

A obra de Jerusa, por sua vez, está inteiramente ligada ao tema da exposição. Essa relação é marcada principalmente pela tentativa da artista em revisitar memórias através da pintura. Ao realizar esse exercício de memória, a artista cria cenários estranhos, porém um tanto familiar ao espectador.

Early Years, 2022


Acompanhando essa tendência da mulher no surrealismo, Jerusa Simone cria algo surreal em meio aos tempos confusos e intensos que estamos vivendo.

Para recebê-la no Coletivo Amarelo e unir a sua visão única à nossa, nós realizamos uma entrevista com a artista. Leia um trecho da nossa conversa e conheça um pouco mais sobre Jerusa Simone, uma mulher que utiliza de suas vivências e do surrealismo para expressar sua arte.

Memórias de uma partida futura, 2020

Coletivo Amarelo: Sobre o quadro "Memórias de uma partida futura", é interessante a brincadeira que você faz com as palavras: "memória" sendo algo que remete a um passado, de algo que ainda não aconteceu, que está no futuro. Existe uma certa tentativa de manipulação do tempo, de trânsito… fale um pouco mais sobre esse trabalho, qual foi o processo de criação por trás dele?

Jerusa Simone: Basicamente, aquele quadro foi feito em um momento muito específico de transição, estava na Itália, prestes a me mudar para a Suíça. Este sentimento é muito estranho, mas já era conhecido. Uma zona que eu já sabia mais ou menos que eu ia enfrentar. Lidar com a cena do novo e do velho, essa dualidade. O quadro está dividido em duas partes: a parte de cima com elementos relacionados à coluna italiana. Este corpo quase obeso, que é inspirado na obra do Lucien Freud. Eu olhava para aquele corpo, e queria trazer essa ideia do belo e do feio, e voltar a dar espaço para mulher, sem hipersexualizar o corpo feminino, mas trazer outros corpos. Eu queria me ver representada. Sempre tive muitos problemas comigo mesma, então olhando pros quadros do Freud, eu pensava: “Wow, isso é grotesco, mas tão bonito”. Esses corpos marginalizados, quase que um confronto, forçar o público a olhar. E o corpo sempre tem um contorno vermelho, e ele está sempre nos cantos, mas sempre presente. A posição reflete isso, essa fase de mudança, de medo. É um lugar familiar, mas dá medo.

CA: Tem uma qualidade de sonho, que acordamos e o sonho está muito nítido, e conforme o tempo vai passando, os detalhes do sonho vão se dissipando. E seu trabalho tem essa característica de memória um pouco embaçada. Como que é fazer uma pintura que reflete o seu momento presente, e depois de anos, revisitar essa mesma pintura e olhar para essas memórias, um pouco confusas, com essa qualidade de sonho? Algo mudou?

Jerusa Simone: Olhando pra ele agora, eu consigo sentir todas as minhas motivações, eu lembro de todos os elementos que eu coloquei, que eu eliminei… e agora nesse momento estou no sítio que eu queria estar quando fiz esse quadro. Já estou na Suíça faz dois anos, mas, entretanto, eu superei esse meu medo que estava muito presente nesse trabalho. Esse elemento de colocar a mão no fogo é algo que eu uso muito, é quase que um auto retrato, eu me coloco em perigo, mas não consigo evitar. Uma autossabotagem, uma cena de transição, de deixar algo para trás.

CA: Essa pintura ilustra um evento de transição pessoal sua, que você se mudou de um lugar para outro e colocou os elementos que estavam presentes nesse processo. Mas por mais que isso tenha sido um recorte específico da sua vida, eu consigo olhar para isso e me enxergar ali de alguma forma, talvez em alguma transição que eu estive, mas faço isso por meio de um sonho de outra pessoa. Quase como se eu tivesse visitado o sonho de outra pessoa.  Você acha que isso faz parte do surrealismo feminino?

Jerusa Simone: Tive a descobrir esse pequeno nicho (o surrealismo feminino), que é esse jogo que eu faço com vários elementos, essa troca de significados dos elementos que eu uso, e conforme o tempo vai passando e vou acumulando novas vivências, coisas vão sendo apagadas e se transformando. Então o meu trabalho faz esse jogo, quase que um quebra cabeça mesmo…

Surroundings, 2022

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