SOBRE RITUAL: Mariana Rodrigues

“É importante, em qualquer relacionamento, fazer rituais - para manter a paz, para manter os pés no chão, para melhorar a comunicação. Existem rituais que ajudam os casais a reafirmar seu propósito, a contribuir com seus dons à comunidade e a compartilhar as dificuldades dos outros, para que não fiquem envolvidos somente com suas próprias questões.” - trecho do livro “O Espírito da Intimidade”.

A escritora Sobonfu Somé, originalmente de Burkina Faso na África, explora os ensinamentos ancestrais Africanos e como eles são aplicados nas inúmeras formas em que nos relacionamos em seu livro “O Espírito da Intimidade”. Somé traz a sabedoria de povos da África Ocidental, convidando o leitor a mergulhar no contexto sagrado de relações humanas por meio de rituais passados por gerações. Para atingir o bem-estar, Somé discute qual é o papel do espírito dentro de nossas vidas.

Esse foi o livro recomendado a nós pela artista Mariana Rodrigues quando conversamos sobre suas pinturas. O seu trabalho é um reflexo da relação da artista com seu próprio corpo e mente, ambos agindo em conjunto como duas partes de uma mesma unidade. Da mesma forma que Somé discute a importância de rituais para relacionamentos saudáveis e longínquos, o papel de rituais na prática de Mariana serve como uma ferramenta de libertação de compreensões puramente lógicas. Suas pinturas são resultados de revoluções internas e espirituais assim dando vazão a um processo de não racionalização da prática artística em si. Como uma dança, a artista cria formas pictóricas e abstratas por meio de estudo dos rituais ancestrais Africanos, transformando esses ensinamentos em pinturas de grande escala.

A harmonia entre linhas, cores e formas convida nosso olhar a percorrer os perímetros do canvas, expondo partes de rituais extremamente íntimos. É como se estivéssemos participando de uma cerimônia promovida pela artista - uma tentativa de compartilhar sua história, suas crenças e paisagens que conheceu.

A prática de Mariana leva a nossa discussão sobre rituais adiante, e assim questionamos: o trabalho do artista está fundamentalmente incorporado em rituais? Existe como divorciar um do outro?