SOBRE RITUAL: Janine Antoni

“Lick & Lather” da artista bahamense Janine Antoni consiste em quatorze bustos de autorretrato que a artista moldou em dois materiais, sete em sabão e sete em chocolate.

Antoni estava particularmente interessada no fato de que o sabão é feito de banha - gordura animal - o que significa que essencialmente limpamos o corpo com o corpo. Decidiu então fazer uma réplica de si mesma em chocolate e sabão para se alimentar de si mesma, lambendo os bustos de chocolate e também se lavar consigo mesma, banhando-se com os bustos de sabonete. Janine descreve seu trabalho performático como atos de amor ao mesmo tempo em que lida com conflitos em torno de nossa aparência física.

“Lick & Lather” também nos obriga a repensar nossos prosaicos rituais como tomar banho e comer, utilizando seu próprio corpo como instrumento de consumo. Enquanto a artista lava seu corpo com os bustos de sabão em forma de mármore, ela se envolve em algum tipo de cerimônia sagrada e altamente íntima, confrontando crenças sobre seu corpo. O mesmo acontece quando ela come o chocolate, transformando meticulosamente as características faciais, algumas resultando em mudanças mais agressivas que outras. Isso cria uma narrativa circular, movendo-se simultaneamente para dentro e para fora.

Janine afirmou anteriormente em entrevistas que ela tinha em mente os rituais da Eucaristia quando produziu "Lick & Lather". Segundo o Novo Testamento, a Eucaristia foi quando Jesus Cristo deu aos seus discípulos pão e vinho durante a Última Ceia, referindo-se ao pão como “Seu corpo” e ao vinho como “Seu sangue”. Era uma forma de manter viva sua própria memória.

À medida que a identidade do artista se desvanece, os rituais de lamber e ensaboar de Janine colocam a importância da peça na confecção, e não no produto final. Os restos desses rituais íntimos também são visíveis para o espectador: podemos ver claramente por onde sua língua passou e onde seu corpo foi pressionado contra o sabão. É através dos próprios rituais que Janine consegue voltar, olhar-se no espelho e questionar: quem sou eu?

Como podemos contextualizar os rituais diários dentro dos processos criativos? O que separa uma rotina de um ritual?