SOBRE ABSURDO: MONICA LOSS

“O Medo de Sentir Medo” da artista brasileira Mônica Loss é uma série de 29 fotografias que dialoga com o absurdo. A artista costurou pedras de jaspe vermelhas em luvas pretas que foram encontradas em um brechó. A partir daí, ela se fotografou enquanto gesticulava suas mãos em frente à câmera. O experimento serviu para refletir sobre o momento atual: a vulnerabilidade trazida pela pandemia, o absurdo que invadiu a vida cotidiana e o impacto na saúde mental.

A tensão que existe entre o ato de “se esconder” versus “se mostrar” é um paradoxo presente nessa obra. Em espaços virtuais, como pode se ressignificar a auto-exposição em frente às câmeras? O corpo atua como um escudo transparente, que ao mesmo tempo que protege, escancara as próprias fragilidades. A luva, sintetiza essa idéia, como uma proteção imaginária, que mais expõe do que esconde. Em meio a uma pandemia global, onde máscaras e luvas são instrumentos de defesa contra um vírus invisível, as luvas de Monica expõem o nosso medo daquilo que não é facilmente identificável.As imagens atraem o espectador, mas provocam um estranhamento: há um estímulo para olhar as belezas das imagens, mas também repulsa.

"O medo de sentir medo" é também uma questão de saúde mental e um reflexo dos desequilíbrios neuroquímicos que a própria artista experienciou no passado. Para Mônica, ataques do pânico e crise de ansiedade foram episódios paralisantes, onde a sensação de medo intenso a incapacitava.

Albert Camus, autor de “O Estrangeiro” é o principal pensador da Filosofia do Absurdismo, na qual os conflitos internos na busca pelo real sentido da vida são questionados e a própria ausência de sentidos surge como conclusão. Diferente do existencialismo de Nietzsche, Camus oferece um olhar mais otimista, ao defender que é preciso aceitar o absurdo em nossas vidas e triunfar sobre ele, sem render-se ao desespero. Para Camus, a aceitação do absurdo é o que conduz a uma vida repleta de liberdade. Interessante dizer que esse era o autor lido por Mônica no momento de execução da série.

É possível percorrer processos criativos sem passar por rotas absurdas?