O MOVIMENTO NET.ART


A Net.Art surgiu no início dos anos 1990 quando um grupo de artistas começou a explorar todas as possibilidades que a internet oferecia: desde a divulgação de seus trabalhos até o uso de softwares e navegadores para criar novos trabalhos. Esses artistas perceberam rapidamente a importância da internet como ferramenta para redescobrir o valor intrínseco da arte, desvinculada dos mecanismos do mercado de arte, e deslocando o foco do objeto para o processo.

Os trabalhos realizados nessa época ilustram o espírito dinâmico e colaborativo da internet dentro do processo criativo. O espaço da internet era um novo território no qual os artistas podiam explorar as inovações que existiam além das instituições físicas, como museus e galerias de arte. O que de fato torna o movimento net.art revolucionário é a liberdade total dos intermediários colocados pelas instituições de arte sobre o trabalho do artista. A net.art desafiou a forma como a arte era feita, estudada, promovida, consumida e exibida.

OS ARTISTAS

Reunimos três notáveis ​​artistas associados ao movimento net.art, destacando a importância de seus trabalhos.

Olia Lialina

Pioneira no movimento net.art, Lialina é mais conhecida por seu trabalho de navegador "My Boyfriend Came Back From The War" de 1996. O site consiste em vários hiperlinks de imagens e texto, todos em preto e branco, nos quais os espectadores podem navegar, clicando em diferentes partes da tela conforme a narrativa é desenvolvida. A história é sobre um casal que se reencontra após a guerra e as dificuldades que surgem em se reconectarem emocionalmente. Ela confessa que teve um caso com o vizinho enquanto surge um pedido de casamento. Esse trabalho cinematográfico, granulado e semelhante aos atuais GIF's, influenciou muitos artistas mais tarde, que também construíram experiências utilizando navegadores e softwares. Visite a obra aqui.

Mouchette

Mouchette é uma obra criada em 1996 pela artista Martine Neddam, nativa de Amsterdã. Ela convida o espectador a navegar por um labirinto de sites HTML da vida turbulenta de uma adolescente lutando contra o suicídio e inumeros trauma. O trabalho é sombrio porém divertido, nos forçando a adivinhar o que vem a seguir. Na época em que o trabalho foi criado, os usuários encontravam instruções sobre onde encontrar a artista por meio de um bot interativo, questionários e trocas de e-mail. A participação do público foi parte central do trabalho, criando um espaço do qual todos podiam fazer parte. Os visitantes do site também eram encorajados a enviar seus próprios trabalhos de net art para a artista por meio do site. Visite a obra aqui.


Alexei Shulgin

A obra "Form Art" de Shulgin, de 1997, é outro arquivo cultural importante da era net.art. Ele usou botões e caixas HTML para criar composições monocromáticas que serviam como um estudo dos mecanismos do próprio HTML. No entanto, "Form Art" tornou-se uma obra de arte mais lírica e abstrata, expondo o esqueleto da internet de uma forma nunca vista antes. Shulgin disse: "Trazê-los em foco foi uma declaração do fato de que um computador não é uma camada invisível, transparente, mas algo que define a forma como somos forçados a trabalhar e até mesmo pensar". Visite a obra aqui.

Os artistas da net.art foram arquitetos de novos universos emocionais, eventualmente tornando esses espaços na infraestrutura digital em que navegamos hoje. A natureza híbrida da internet, onde todas as formas de arte têm um lugar para viver lado a lado - imagens, texto, vídeo, som, etc. - impactou o cerne do processo de criação. Não havia mais separação entre onde você cria, colabora, projeta e promove; tudo passou a acontecer em um só lugar: na internet. A ideia de que a internet poderia acomodar todos os aspectos do processo criativo influenciou os próprios trabalhos, mas também a resposta do público a eles.

Alexei Shulgin, "Desktop Is", 1997


Josephine Bosma, crítica e teórica especializada em arte no contexto da internet disse:

"Para colocar net.art na perspectiva certa, a história da arte deve ser parcialmente reescrita. Muita ênfase foi colocada no status de mercadoria das obras de arte durante este século. Inevitavelmente, essa tendência exclui certas artes e artistas que não satisfazem os critérios relacionados . Talvez net.art nos ofereça a oportunidade de repensar os critérios de valorização da arte. Claro, net.art não é um objeto facilmente perceptível. Muita arte na internet parece muito dispersa devido ao uso de múltiplas mídias e transitoriedade. Para experimentá-la, é preciso ser um seguidor ávido da cultura da própria internet. "

A visão de Bosma sobre o impacto da qualidade da Internet nas artes ainda carrega um imenso valor. O que ela chamou de net.culture em 1998 ressoa para todos nós - artistas e consumidores de arte - talvez mais do que nunca. À medida que circulamos por esse espesso nevoeiro de mídia nas plataformas sociais e na web como um todo, é inevitável nos perguntarmos para onde a arte caminha a partir daqui. Talvez devêssemos seguir o conselho de Bosma e reescrever a história da arte.

Como categorizar a arte no contexto da internet? Essa necessidade de categorização ainda é necessária? Net.art tornou quase irrelevante distinguir o que é arte e o que não é. Por isso, Bosma concluiu que os artistas que não desejam qualificar seu trabalho como arte poderiam evitar as discussões limitantes sobre a relevância e o valor de seu trabalho dentro de um "mercado de arte". Como muitos artistas da net.art preferiram permanecer invisíveis, dissolvendo-se em suas obras efêmeras e temporárias para a internet, Bosma nos deixou uma consideração importante: afinal, a arte só é capaz de lucrar com essa obscuridade?

VNS Matrix, "Cyberfeminist Manifesto for the 21st Century", 1991

Shu Lea Cheang, "Brandon", 1998

Kit Galloway, Sherrie Rabinowitz and collaborators, "Mobile Image" , 1975.

Olia Lialina "Summer" 2013

Muito mudou de 1998 para 2021, mas a Internet continua sendo um lugar onde as paredes são constantemente derrubadas e reconstruídas. Novas linguagens visuais são escritas todos os dias, adicionando combustível à nossa experiência digital compartilhada e muito vertiginosa, revelando mais sobre nós mesmos por meio de camadas editadas e impermanentes. Como a arte pode nos ajudar a entender os motores em constante mudança da expressão criativa?

Afinal, seria a Internet a nossa maior aliada dentro da produção artística?



Próximo post: A arte pós internet, NFT's, Instagram.


Referências:

Art Term: Internet Art

https://www.tate.org.uk/art/art-terms/i/internet-art

Josephine Bosma: It is net art!

http://www.chronusartcenter.org/en/welink-%E7%BA%A6%E7%91%9F%E8%8A%AC%C2%B7%E5%8D%9A%E6%96%AF%E7%8E%9B-%E5%AE%83%E6%98%AF%E7%BD%91%E7%BB%9C%E8%89%BA%E6%9C%AF%EF%BC%81/

Net.Art Anthology

https://anthology.rhizome.org/