ARTE E SUSTENTABILIDADE: COMO ARTISTAS E IMPACTOS AMBIENTAIS ESTÃO RELACIONADOS?

Escrito por Eduardo Dias


A busca por um desenvolvimento menos agressivo ao meio ambiente é um tema indiscutivelmente chave para diversos desafios do século XXI. Em 2015, a Organização das Nações Unidas lançou a “Agenda 2030”, uma resolução que reúne 17 objetivos para o desenvolvimento sustentável (1) incluindo produção e consumo conscientes, energia limpa, defesa da vida na terra e na água, combate à desigualdade social, entre outros. Assim, são imprescindíveis políticas para promover ações que visem não comprometer as necessidades de gerações futuras, considerando, por exemplo, menor emissão de poluição no ar e nos mares, conservação da biodiversidade, redução do desmatamento e da produção de resíduos sólidos, uso inteligente de matéria-prima natural, etc.


Tais ações precisam permear diversas áreas de atuação humana, e, assim, cada campo pode buscar suas próprias maneiras para alternativas sustentáveis. A indústria automobilística investe em automóveis movidos a energia elétrica em detrimento do combustível fóssil, a indústria alimentícia pesquisa embalagens biodegradáveis para substituição do uso de plásticos, a moda desenvolve produção textil com tecidos que utilizem menos água para confecção. É neste contexto que surgem as provocações que movem nossa pesquisa: quais são as iniciativas para ações sustentáveis no mundo da arte? De que maneira artistas produzem obras menos agressivas ao meio ambiente? Qual é a responsabilidade da arte no manejo de Impactos Ambientais? Na verdade, artistas sabem o que são Impactos Ambientais?


Explorando este tema, o Coletivo Amarelo lançou um questionário online para entender os conhecimentos prévios de artistas de diversos ramos. A maioria dos participantes declaram já terem feito algum tipo de arte, sobretudo com técnicas de desenho, pintura e plásticas (Figura 1 & 2).


1. Você já fez ou faz algum tipo de arte?



2. Que tipo de arte?



Além disso, os participantes demonstraram respostas em comum ao serem perguntados sobre a definição de Impactos Ambientais. Os termos mais frequentes empregados para explicar esta definição estão organizados na nuvem de palavras a seguir (Figura 3).


Figura 3


Com base nisto, podemos observar que os participantes empregam principalmente o uso dos termos “ambiente”, “alteração”, “ação”, “humano” e “tudo”, associando, desta maneira, ideias sobre mudanças causadas no ambiente provocadas por humanos. Em seguida, é possível ver o uso em frequência média dos termos “planeta”, “causa”, “efeitos” e “negativos”. Assim, as principais respostas assumiram que os Impactos Ambientais são todas as interferências humanas no meio ambiente que tenham como resultado efeitos danosos.

Conceitualmente no meio científico e legal são considerados Impactos Ambientais toda e qualquer alteração de propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente resultante de atividades humanas que afetam, direta ou indiretamente, a saúde e a segurança da população, atividades econômicas, a biota, as condições sanitárias e a qualidade dos recursos ambientais (2).

Ou seja, os Impactos Ambientais podem ser entendidos como qualquer tipo de alteração causada por humanos, mas seus efeitos podem ser tanto positivos quanto negativos e se expandem para âmbitos naturais e sociais. Portanto, de acordo com o resultado de nossa pesquisa, os participantes demonstraram ter um conhecimento sobre impactos ambientais com tendência a compreender apenas os danos naturais e negativos. Corroborando isto, foi possível observar na nuvem de palavras que não há menções de termos com cunho social e que o termo “positivos” foi mencionado com frequência menor que o termo “negativos”.


Além disso, os participantes em maioria concordam que a produção artística é capaz de gerar Impactos Ambientais, mas metade declarou não conhecer a “Arte Ecológica”. (Figura 4 & 5).

4. "Fazer arte pode gerar impactos ambientais". De acordo com essa afirmação, eu:


5. Have you ever heard of Ecological Art?



Com base nisto lançamos o seguinte questionamento: se artistas entendem por Impactos Ambientais todo e qualquer tipo de alteração causada por humanos no meio ambiente que tenham cunho mais negativo do que positivo, de que maneira artistas podem reduzir os aspectos negativos e passar a promover Impactos Ambientais positivos a partir da própria produção?


A sustentabilidade através da arte é uma abordagem que pode ser cimentada nos princípios intrínsecos do desenvolvimento sustentável e da liberdade da expressão criativa. Isto é, a arte pode desempenhar um papel crucial na procura de sociedades mais sustentáveis, e, apesar de muitas vezes os projetos artísticos serem secundários nas políticas públicas, a importância da arte como catalisadora da cultura e da sociedade é historicamente indiscutível (3).


Para o sociólogo Hans Dieleman, a sustentabilidade é um processo de criação de um novo mundo com novas instituições, produtos e relações. Assim, ele cita que este processo tem base na racionalidade da ciência e da política, mas argumenta que isto também abrange emoções, desejos, medos, estilos de vida, identidades e noções intuitivas. Como este processo culmina em visões e expectativas do futuro, mudanças sustentáveis são essencialmente “a arte de ser diferente”, usando produtos diferentes, propondo designs diferentes, tendo estilos diferentes, engajando em práticas diferentes e sobretudo lendo a realidade de maneiras diferentes (4).


Portanto, o conceito de Arte Ecológica pode ser incluído na conscientização de artistas que buscam pela sustentabilidade: trata-se de um gênero artístico concebido em meados dos anos 90 que carrega princípios como conectividade, reconstrução, responsabilidade ético-ecológica, respeito aos bens comuns, re-generatividade não-linear, navegação e equilíbrio dinâmico em múltiplas escalas (5).

Neste ramo, podemos citar o artista dinamarquês Olafur Elliasson, famoso por trabalhar experiências artísticas com parâmetros físico-químicos, como luz, água e temperatura. Em 2018, Olafur montou em Londres uma instalação chamada de Ice Watch London, composta por 30 pedaços de um iceberg coletados em um fiorde na Groelândia. A obra serviu de alerta para os efeitos das mudanças climáticas, denunciando o derretimento do segundo maior bloco de gelo do mundo depois da Antártida.

"The Weather Project" por Olafur Elliasson. Fotografia: Linda Nylind/The Guardian


No mesmo gênero, o polonês radicado no Brasil Frans Krajcberg dedicou a vida à exploração das relações de arte e meio ambiente. Frans coletava o material encontrado após queimadas em florestas brasileiras (utilizadas para desmatamento e abertura de local para pasto) e o transformava em esculturas que representavam o abandono da natureza, empregando o contraste das cores vermelha e preta: fogo e morte.


Juntas, as obras de Olafur e Frans podem ser compreendidas como um ativismo político e social através da arte contra a destruição do meio ambiente e pela defesa da biodiversidade. Desta maneira, os princípios da Arte Ecológica aplicados aos objetivos da sustentabilidade criam uma forma de vislumbrar o futuro considerando que nossos hábitos precisam ser superados, compreendendo a responsabilidade do artista no seu processo e produto para reduzir os impactos ambientais negativos e promover os positivos.


Por fim, se políticas para ações menos danosas ao futuro são imprescindíveis para o desenvolvimento sustentável e o alcance de agendas internacionais, definitivamente a arte deverá ocupar o lugar que lhe é por concepção: catalisar uma nova cultura possibilitando que as próximas gerações façam leituras da realidade diferentes das que fizemos até aqui.



Referências:

(1) The 17 Goals - Department of Economic and Social Affairs: Sustainable Development (United Nations); https://sdgs.un.org/goals


(2) Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) - Resolução Nº 1, Art. 1º. http://www.ima.al.gov.br/wizard/docs/RESOLU%C3%87%C3%83O%20CONAMA%20N%C2%BA001.1986.pdf


(3) Lopes et al. Sustainability through Art. Energy Procedia 119 (2017) 752–766.


(4) Hans Dieleman. Sustainability, Art and Reflexivity. Sacha Kagan / Volker Kirchberg (eds.) (2008); Sustainability:a new frontier for the arts and cultures.


(5) Kagan, S. The practice of ecological art (2014). Institute of Sociology and Cultural Organization, Leuphana University, Lüneburg.